felicidade clandestina

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Natalie Shau

Clarice Lispector.

Ucraína e brasileira.

Unha especie de oxímoron andante, escribinte, silandeiro. Arelante. Os textos de Clarice teñen algo de aparición no alto das escaleiras. Sobrecollen un pouquiño. Ás veces.

Este é un dos contos que máis tardei en esquecer escrito por ela. De feito, polo de agora non logrei esquecelo nunca. Iso é moito para un conto.

O PRIMEIRO BEIJO

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.

– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

Ele foi simples:

– Sim, já beijei antes uma mulher.

– Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.

O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.

Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.

Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…

Ele se tornara homem.

Clarice Lispector en “Felicidade Clandestina”

4 thoughts on “felicidade clandestina

  1. “No puedo escribir mientras estoy ansiosa o espero soluciones, porque en esos momentos hago cualquier cosa para que las horas pasen, y escribir es prolongar el tiempo, es dividirlo en partículas de segundos, dando a cada una de ellas una vida insustituible”. (Para no olvidar)

    Anxos Sumai díxome un día que ela, de maior, quería escribir como Clarice. Polo de agora, Lispector conseguiu que nós, como lectores seus, prolongásemos o tempo con ela. O malo é que un sempre quere voltar ao tempo que ela atrapou e alongou nas súas verbas, e fai que as de un se volten un chisco ananas.

    Noraboa polo blog. Coñecinte rifando con alguén. Ultimamente coñezo a moitas escritoras que rifan e se anoxan. E a Caneiro tamén. Xa mo decía Gatopardo: prefiro ter amizades entre os fontaneiros que comadrear con escritores. Saúdos.

  2. As escritoras, como os fontaneiros, as contorsionistas birmanas, os deseñadores de interiores e as ensambladoras de pezas de xoguetes nunha cadena de montaxe, rifan e se anoxan. Un fontaneiro arránxate a cisterna. Unha escritora ou escritor, non. De feito, non sei moi ben que fan no mundo as escritoras [e escritores]. Escriben, ben. Pero, o resto do tempo? Hai que revisar, pois, a utilidade para a polis de tantos escritores [ou escritoras]. A ver se vai haber que redefinilos a todos. A ver se vai haber que poñer en práctica unha “solución final”.

    Ola Pablo, sen dúbida Clarice…non sei que ía dicir. Probablemente xa o dixeches ti. Grazas polo comentario.

  3. Mira, non te coñezo de nada, leínte nada máis un pouco e andiven por aquí, pero a min encántame o que fas. E sei ben que non só a min se non a moita máis xente. Adiante!

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